Há cerca de sete anos, em 8 de julho de 2014, o mundo assombrou-se com uma goleada inédita em semifinal de Copa do Mundo de futebol: Alemanha 7 x 1 Brasil. Até hoje os especialistas e palpiteiros elaboram análises buscando entender ou justificar o episódio. O único consenso parece ser o de que é praticamente impossível o placar se repetir, tanto numa eventual revanche como num outro triunfo germânico.

No entanto, caros leitores, estamos há sete anos sofrendo uma goleada ininterrupta e avassaladora, similar à que sofremos no gramado do Mineirão. Por isso, o título do artigo não está errado. Não quis dizer “Sete anos DO 7 x 1”.  A intenção foi mesmo expressar “Sete anos DE 7 x1”.

Com efeito, ao longo desse período, nosso país tem sofrido revezes contínuos e crescentes em importantes setores da vida nacional. Mas, ao contrário do que ocorreu na Copa do Mundo, não somos vítimas do talento e habilidade dos jogadores adversários. Somos punidos por nossas próprias falhas, limitações e incapacidade de construir políticas públicas que conduzam ao desenvolvimento econômico, regionalmente equilibrado, ambientalmente sustentável e socialmente justo.

São sete “gols contra” que praticamos contra nós mesmos, contra o Brasil e os brasileiros, todos os dias. Não são gols contra de responsabilidade única e exclusiva desse ou daquele mau gestor, embora não os faltem, mas sim da histórica acomodação coletiva à mediocridade, à barbárie e aos escândalos. Vamos a eles.

0 x 1 – educação. O Plano Nacional de Educação está completando sete anos, sem a menor perspectiva de atingir as metas previstas para 2024. Ao contrário: à estagnação em alguns indicadores, soma-se o retrocesso em outros. No século XXI, temos escolas sem internet e também sem energia, água potável e até banheiros. Passaporte para o atraso e a terceira divisão.

0 x 2 – saúde. Mais de meio milhão de mortos vítimas da Covid-19 e uma sucessão monstruosa de erros de toda espécie no enfrentamento da pandemia.

0 x 3 – meio ambiente. Nos últimos anos, retrocedemos décadas, com a fragilização dos órgãos ambientais e a involução da legislação ambiental, com o consequente aumento do desmatamento ilegal, queimadas, destruição da biodiversidade e das unidades de conservação.

0 x 4 – violência. Somos um dos países com maior índice de crimes contra a vida, especialmente homicídios e feminicídios. Somos um dos países em que os policiais mais matam e mais morrem. De acordo com o Atlas da Violência, a maior parte das vítimas é jovem e negra.

0 x 5 – desigualdade. Somos, historicamente, um dos países mais desiguais, em termos de concentração de renda e de acesso a oportunidades de estudo e emprego. O sistema tributário é regressivo, penalizando os mais pobres. Nos últimos anos, a desigualdade tem aumentado.

0 x 6 – intolerância. Nesse quesito, tem crescido a intolerância religiosa, especialmente contra as religiões de matriz africana, cujos locais de culto têm sido violentados. O racismo estrutural é perene e atinge tanto negros como indígenas. Apesar das leis e da jurisprudência, manifestações homofóbicas e machistas fazem parte do cotidiano.

0 x 7 – políticas públicas. O regresso é evidente e crescente. Um dos principais sintomas é o atraso de pelo menos dois anos na realização do Censo Demográfico do IBGE, cujas informações são indispensáveis para o diagnóstico, formulação, planejamento e avaliação das diversas ações, tanto do setor público como do privado. Sem dados atualizados, estamos em voo cego, acumulando erros e desperdício. A asfixia orçamentária e financeira imposta a universidades públicas e a centros de pesquisa como o INPE terá reflexos desastrosos por décadas. No século da inovação tecnológica, desprezamos a pesquisa, a ciência, a cultura e a arte.

Sete gols contra.

1 x 7 – O solitário gol a favor é a nossa potencial capacidade de resistir e de virar esse jogo. Como no futebol, não basta trocar os treinadores e os jogadores selecionados. É preciso uma profunda mudança na cultura organizacional e o comprometimento coletivo com princípios e objetivos. A única estratégia possível é a democracia e o respeito ao pacto civilizatório expresso na nossa Constituição. Teremos coragem, energia e paciência? Ou seremos eternos prisioneiros dessa goleada?

Luiz Henrique Lima é Auditor Substituto de Conselheiro do TCE-MT.