“O conflito faz parte das relações humanas, mas a violência, definitivamente, não faz”, por Sabrina Iocken
No lançamento da Rede Nacional de Controle Externo pela Proteção das Mulheres (Rede que Protege), tive a oportunidade de representar a AUDICON e de construir minha fala a partir de um diálogo entre três autores que gosto muito e que têm influenciado minhas reflexões.
Eliana Alencar, psicóloga que em sua tese de doutorado tem se debruçado sobre os registros históricos do patriarcado; Adam Grant, cujos livros sempre me provocam novas reflexões sobre comportamentos humanos; e Damon Centola, cuja obra Mudança me apresentou um novo olhar sobre a ciência das redes e sobre como transformações sociais se difundem.
A partir de perspectivas distintas, procurei aproximar suas ideias para refletir sobre proteção às mulheres, mudança de comportamentos e o papel das instituições na transformação de padrões sociais.
Compartilho aqui um pouco desse diálogo.
Falar sobre violência contra a mulher exige, antes de tudo, reconhecer que não estamos falando de um problema que diz respeito apenas às mulheres. Estamos falando das relações que construímos como sociedade, da forma como exercemos o poder, dos comportamentos que naturalizamos e, também, dos comportamentos diante dos quais escolhemos permanecer em silêncio.
E talvez seja importante começar justamente pela ideia de que aquilo que hoje nos parece natural nem sempre foi assim.
Eliana Alencar, psicóloga que trabalha no campo da Conflitologia — ramo do conhecimento dedicado à compreensão dos conflitos e das formas de como lidar com eles —, traz uma reflexão histórica para as relações entre homens e mulheres. Em seu texto sobre o que denomina “marco zero do patriarcado”, ela revisita os registros arqueológicos para identificar sociedades humanas primitivas que se organizavam sem uma hierarquia rígida de gênero e conclui de modo assertivo: “o patriarcado não é natural. Não é eterno.”[1]
Ela nos lembra que as formas de organização social e as relações de poder entre homens e mulheres são construções políticas, econômicas e históricas.
E essa percepção é essencial porque muda a maneira como olhamos para o nosso momento atual, já que o que se construiu ao longo do tempo também pode ser questionado e transformado.
Mas a grande questão é: se muitas dessas desigualdades já são amplamente reconhecidas, por que determinados comportamentos continuam sendo reproduzidos?
Por que certas manifestações de sexismo ainda são tratadas como brincadeira? Por que atitudes de controle e domínio podem ser confundidas com cuidado? Por que comportamentos que diminuem ou silenciam uma mulher ainda encontram tolerância em tantos ambientes?
Adam Grant, psicólogo organizacional e autor de diversas obras, nos ajuda a compreender uma parte desse problema ao estudar o comportamento das pessoas dentro dos grupos e das organizações.
Grant chama a atenção para o papel do silêncio.
Em uma reflexão sobre o sexismo, ele observa que, quando os homens permanecem em silêncio, as pessoas podem superestimar o quanto o sexismo é aceito, contribuindo para a perpetuação do problema.
Essa conclusão de Grant significa que o silêncio também comunica.
Quando presenciamos uma manifestação de sexismo e ninguém diz nada, quem praticou aquele comportamento pode interpretar a omissão como concordância.
Mas não apenas essa pessoa. As outras ao redor também observam e podem concluir que aquele comportamento é tolerado.
É assim que determinadas normas sociais conseguem sobreviver mesmo quando, individualmente, muitas pessoas já não mais concordam com elas.
Por isso, talvez não seja mais suficiente que um homem simplesmente diga:
“Eu nunca agredi uma mulher.”
É claro que isso é fundamental. Mas precisamos avançar.
Precisamos perguntar também:
O que fazemos quando presenciamos uma mulher sendo humilhada?
O que fazemos quando percebemos uma tentativa de controle, intimidação ou silenciamento?
E o que fazemos quando isso acontece no trabalho, entre amigos ou dentro das nossas próprias famílias?
Não praticar a violência é o mínimo. Não torná-la natural é também uma responsabilidade.
E neste momento surge uma segunda questão. Se o silêncio pode ajudar determinadas normas a permanecerem, como podemos construir novas normas sociais?
Um campo do conhecimento que vem ganhando cada vez mais destaque, é a ciência das redes, que oferece uma contribuição muito interessante para responder a essa pergunta.
Damon Centola, sociólogo e professor da Universidade da Pensilvânia, dedica boa parte de suas pesquisas a compreender como comportamentos, ideias e mudanças sociais se propagam pelas redes.
Uma das conclusões mais importantes de seus estudos é que mudanças comportamentais complexas dependem de reforço social.
Para determinadas transformações, não basta simplesmente receber uma informação.
Precisamos perceber que outras pessoas também estão mudando.
Precisamos encontrar apoio e referências dentro das nossas próprias redes.
Isso significa que, quando uma pessoa se posiciona diante de um comportamento inadequado, ela não está apenas manifestando sua a própria opinião. Ela pode estar tornando mais fácil para uma segunda pessoa também se posicionar. E, quando duas pessoas se posicionam, uma terceira pessoa percebe que também pode fazê-lo.
Aquilo que parecia uma atitude isolada começa a ganhar força.
Até que, em algum momento, o que começa a mudar não é apenas o comportamento de algumas pessoas.
Começa a mudar aquilo que o grupo considera aceitável.
Essa perspectiva nos oferece uma mensagem importante para o enfrentamento da violência contra a mulher.
Nós não precisamos esperar que toda a sociedade mude para começarmos a mudar a sociedade.
Cada ambiente do qual participamos é uma rede.
Nossa família é uma rede. Nosso grupo de amigos é outra. O ambiente de trabalho outra é mais uma. As instituições das quais participamos também são redes.
E hoje, aqui, estamos fortalecendo uma rede de proteção às mulheres no âmbito do controle externo.
Uma responsabilidade que pertence também aos homens. Não porque todos sejam responsáveis pela violência praticada por outros homens. Mas porque todos participam das relações e das redes sociais nas quais determinadas normas são reproduzidas — ou transformadas.
E é justamente aqui que podemos voltar ao pensamento de Eliana Alencar e à Conflitologia. Uma das ideias importantes desse campo é compreender o conflito como parte das relações humanas.
Onde existem pessoas, há diferenças, divergências, interesses distintos, frustrações e conflitos.
O desafio de uma sociedade não é imaginar que conseguiremos eliminar todos eles, mas aprender a lidar com essas diferenças sem transformar o conflito em domínio, medo ou violência. E isso nos devolve ao ponto de onde começamos.
Se determinadas relações de poder foram historicamente construídas, elas também podem ser historicamente transformadas.
Se o silêncio ajuda a sustentar uma norma, a nossa voz pode ajudar a modificá-la.
E, se estamos todos conectados em redes, cada pessoa que muda sua atitude pode tornar mais fácil para outra pessoa fazer o mesmo.
Por isso, o enfrentamento da violência contra a mulher não pode ser um compromisso exclusivo das mulheres. Precisa ser um compromisso de todos.
Porque o conflito faz parte das relações humanas, mas a violência, definitivamente, não faz.
[1] ALENCAR, Eliana. De la igualdad prehistórica al patriarcado. Linkedln, ago. 2026. Disponível em: https://www.linkedin.com/posts/eliana-g-alencar-66060023a_de-la-igualdad-prehist%C3%B3rica-al-patriarcado-share-7484245525421281281-Ulbo?utm_medium=ios_app&rcm=ACoAADuIq6gBib8yNo7t1hdS297RRXdDE3Yq708&utm_source=social_share_send&utm_campaign=whatsapp. Acesso em: 10 ago. 2026.